O
equilíbrio dinâmico hidrostático/oncótico/mecânico
O equilíbrio
dinâmico hidrostático / oncótico
/ mecânico do corpo humano foi estudado por
Starling que o definiu como o equilíbrio entre
filtragem e reabsorção; por outro lado
o equilíbrio de pressões foi demonstrado
graficamente por Kuhnke. Através dos recentes
modelos desenvolvidos pela Engenharia Biomédica,
se analisarmos o funcionamento do sistema circulatório
que abrange o sistema vascular sanguíneo e
o linfático sob o prisma da Mecânica
dos Flúidos vamos constatar que o coração
age como uma bomba hidráulica de recalque forçando
a circulação do sangue de forma contínua
, porém pulsativa, através de artérias,
arteríolas e vênulas que possuem paredes
semi-permeáveis.
As artérias
de grosso calibre à saída do coração
apresentam paredes elásticas, distendendo-se
durante a sístole e retornando ao repouso na
diástole, agindo como um autêntico acumulador
hidráulico tornando o fluxo sanguíneo
contínuo, menos pulsátil e praticamente
constante a despeito do caráter pulsativo do
bombeamento sanguíneo.
Desta forma o fluxo
sanguíneo pode ser modelado como laminar ou
lamelar, apresentando em consequência número
de Reynolds reduzido.
Como no sistema arterial
a pressão, medida em mmHg = milímetros
de coluna de mercúrio (torr =Torricelli) ou
na unidade do sistema métrico denominada kiloPascal
(1 kPa= 7,5 torr) é mais elevada, o diferencial
de pressão hidrostática existente entre
a parte interna dos vasos arteriais e o meio que os
circunda força a saída de parte da água
, nutrientes e outros produtos , contribuindo para
a formação dos chamados flúidos
extracelulares.
É importante
se notar que isto sucede devido ao fato que a pressão
hidrostática sobrepuja o efeito contrário
combinado da pressão oncótica e a pressão
tissular.
A pressão
hidrostática criada pelo bombeamento de sangue
pelo coração é da ordem de 30
torr no sistema arterial e 20 torr no sistema venoso
, pois à medida que o sangue flue para regiões
cada vez mais distantes do coração ,
a pressão vai gradativamente diminuindo em
função da resistência encontrada
no percurso.
A pressão
hidrostática age no sentido de "expulsar"
moléculas de proteínas , água
e nutrientes do interior dos vasos sanguíneos
para os tecidos adjacentes , porém sua ação
é dificultada pela oposição da
resultante de duas componentes representadas pela
pressão oncótica e pressão tissular.
A pressão oncótica
(ou coloidosmótica) é função
da concentração de proteínas
e albumina no sangue , sendo da ordem de 25 torr no
sistema circulatório sanguíneo e da
ordem de 4 torr nos tecidos adjacentes. Este diferencial
de pressão age no sentido de diminuir a concentração
de proteínas no sistema circulatório
sanguíneo forçando a saída de
moléculas deste, bem como de água e
outras moléculas através das paredes
semipermeáveis dos capilares , indo integrar
os flúidos extra celulares que alimentam os
tecidos adjacentes.
A segunda componente
de oposição é a pressão
mecânica tissular exercida pelos próprios
tecidos sobre a rede circulatória , sendo seu
valor de aproximadamente 2 torr na rêde capilar
.
Isto nos permite escrever
a equação que rege este equilíbrio
de pressões , a qual deve ser satisfeita sempre
, em qualquer ponto e à qualquer instante :
Diferencial líquido
de pressão = Pressão hidrostática
- (Pressão oncótica no interior dos
vasos - Pressão oncótica no meio exterior)
- Pressão tissular
Vamos analisar agora
algumas situações importantes :
EQUILÍBRIO
DINÂMICO NO SISTEMA CIRCULATÓRIO SANGUÍNEO
ARTERIAL
Como já dissemos,
a pressão hidrostática no sistema arterial
é da ordem de 30 torr , sendo que é
contraposta pela diferença das pressões
oncóticas internas e externas e pela pressão
tissular .
Assim temos :
Diferencial líquido
de pressão = 30 - 25 + 4 -2 = 7 torr (sistema
arterial)
Na situação
de regime estabelece-se desta maneira um equilíbrio
dinâmico de natureza hidrostática/oncótica/mecânica
no qual existe uma resultante de pressão da
ordem de 7 torr com sinal positivo , ou seja , forçando
a saída de proteínas , água e
outras moléculas através das paredes
semipermeáveis dos vasos sanguíneos
para os tecidos adjacentes , formando os flúidos
extra celulares.
EQUILÍBRIO
DINÂMICO NO SISTEMA CIRCULATÓRIO
SANGUÍNEO VENOSO
À medida que
a pressão hidráulica vai decrescendo
em função da diminuição
da área da seção reta dos vasos
sanguíneos, ou seja, do seu estreitamento,
eleva-se no aspecto hidráulico a perda de carga,
de modo que a pressão sanguínea interna
aos vasos vai decrescendo no percurso , valendo da
ordem de 20 torr ao atingir o sistema venoso.
Assim temos :
Diferencial líquido
de pressão = 20 - 25 + 4 -2 = - 3 torr (sistema
venoso)
Como pode ser notado,
o diferencial de pressão apresenta nesta situação
sinal negativo , o que indica que o fluxo dá-se
agora em sentido contrário , significando que
no sistema venoso , que é de baixa pressão
hidráulica , uma parcela dos fluidos extracelulares
tende a retornar ao sistema circulatório pois
os efeitos combinados das pressões oncótica
e tissular sobrepujam o da pressão hidrostática.
Como resultado parte
dos flúidos e pequenas moléculas tendem
a retornar para os vasos sanguíneos de baixa
pressão, atravessando suas paredes semi-permeáveis
.
EQUILÍBRIO
DINÂMICO GLOBAL NO SISTEMA CIRCULATÓRIO
SANGUÍNEO E SISTEMA LINFÁTICO
Paralelamente ao
retorno de parte dos flúidos extracelulares
ao sistema venoso, estes já adicionados de
produtos residuais da metabolização
nas células e moléculas de alto peso
molecular, também são conduzidos ao
sistema linfático que identicamente é
um sistema de baixa pressão hidrostática
, indo tomar parte na formação da linfa
.
O processo se inicia
nos linfáticos iniciais que se apresentam como
formações de tubos fechados como dedos
de luva que não apresentam musculatura própria,
possuindo contudo paredes fenestradas que permitem
a entrada dos flúidos extracelulares e moléculas
de grande peso molecular impelidos pelo movimento
mecânico dos tecidos adjacentes aos quais estão
ancorados através de ligações
fibrosas .
Estes linfáticos
iniciais convergem para os pré-coletores e
coletores linfáticos, sendo que sua unidade
fundamental, denominada linfângio apresenta
internamente formações similares a verdadeiras
válvulas mecânicas que só permitem
a condução unidirecional de flúidos
e possuem musculatura própria auto-acionada
que bombeia ditos flúidos em seu interior de
maneira unidirecional, encaminhando-a para os linfonodos
(anteriormente denominados gânglios linfáticos),
originando desta maneira a linfa.
A linfa finalmente
chega ao sistema circulatório sanguíneo
através de dois grandes dutos, o toráxico
e o linfático direito, encaminhando-se de forma
indireta aos sistemas digestório e urinário
para processamento e eliminação dos
produtos que são assim finalmente excretados,
preferencialmente através da urina .
SITUAÇÕES
DE DESVIOS DO EQUILÍBRIO DINÂMICO GLOBAL
De acordo com os princípios hidráulico,
fisioquímico e mecânico, todo e qualquer
fator que possa elevar o volume dos flúidos
extra celulares pode contribuir para o desequilíbrio
na operação das unidades microcirculatórias,
os ângions, fato de elevada importância
na ocorrência das HLD.
Dentre estes, temos
os mecanismos que contribuem para o aumento da pressão
(hidrostática) arterial, que como vimos é
originalmente responsável pela fuga inicial
de flúidos do sistema .
Ela pode ocasionar
armazenamento (retenção) de excesso
de flúidos, causando edemas (inchaços)
que podem ocorrer por exemplo quando rotineiramente
se consome em demasia alimentos com excesso de sal
de cozinha .
Outro fator é
a insuficiência proteica na alimentação
que ocasiona uma diminuição da pressão
oncótica, criando acentuada fuga de líquidos
que cria o edema carencial denominado "kwashiorkor"
, conhecido vulgarmente como "barriga d'água".
Até fatores
de origem mecânica, tais como a ação
da fôrça gravitacional em situações
posturais ou ocupacionais que nos obriguem a ficar
por muito tempo estáticos na posição
ereta, ou então permanecermos sentados durante
longos períodos , ou até mesmo o fato
de usarmos continuamente roupas demasiadamente justas
podem contribuir para o aumento da celulite pois prejudicam
a microcirculação sanguínea ,
favorecendo o aparecimento de edemas que podem ser
avaliados pelo sinal de Godet , sendo que estes edemas
ocorrem com maior frequência nos membros inferiores
e contribuem para o comprometimento das unidades microcirculatórias
locais.
O sedentarismo é
outro fato que pode originar problemas microcirculatórios
que podem favorecer o círculo vicioso HLD e
edemas associados.
Por outro lado também
alterações na permeabilidade dos capilares
também podem desequilibrar o sistema, como
por exemplo as advindas da utilização
de diuréticos de forma indiscriminada e sem
acompanhamento médico .
De tudo o que foi exposto se observa que uma baixa
eficiência na drenagem do excesso de flúidos
extracelulares ocasiona o acúmulo de substâncias
que deveriam ser eficientemente eliminadas de forma
natural e contínua pelo organismo à
partir do sistema linfático .
Esta é a razão
pela qual a drenagem linfática é de
grande valia para um eficiente auxílio no combate
à celulite, como complemento de outros tipos
de tratamento.